A noite se
estende e parece mais longa que o de costume, deixamos Katsuo descansar mais
enquanto Eikichi e Hiroshi fazem a primeira patrulha; quando finalmente consigo
dormir um pouco já sou acordada por Eikichi; eu e Naoto somos a patrulha da
vez. Acho que são por volta de 3 da manhã, Naoto fica observando o lado de fora
encostado próximo a janela, enquanto faço esforço para me manter acordada, ate
que sinto alguém se aproximar e sentar do meu lado; Katsuo, que logo após sentar-se
me afaga a cabeça e calmamente fala:
- Durma um
pouco mais, eu ajudo Naoto. – Katsuo fala com um tom sereno e com um sorriso fácil
no rosto.
- Não! Você
tem que descansar Katsuo-san você... – Ele me empurra a cabeça para baixo e
responde.
- Nada disso,
durma; afinal tenho que me preocupar com alguém por aqui, e depois do velho
Ishida se foi, você é a única pessoa que me lembra minha família... me lembra
minha irmã menor é você Mitsuko-chan - Katsuo fala com um
tom mais baixo e passa um tempo com um olhar distante.
- Sua irmã?
Aposto que ela é bem mais boni...
- Ela faleceu
a 3 meses no ultimo bombardeio a Kyoto.
As palavras de
Katsuo me emudecem, Naoto finge não ouvir e se distancia, enquanto um clima
pesado se estende enquanto os outros dormem. Mas apesar do clima consigo
sentir-me protegida de novo, o rosto de Katsuo não emana pesar, pelo contrário uma
serenidade e paz me preenchem ao observar sua face.
- M-Me
desculpe. – Falo com pesar pelo comentário, mas Katsuo me afaga a cabeça
novamente com um sorriso no rosto.
- Vá dormir, mesmo na guerra uma garota precisa descansar! – Mesmo resistindo um pouco,
acabo sendo dobrada pelas palavras de Katsuo e retorno ao descanso.
O sono me traz
as lembranças de Mitsuo, me traz bons momentos, mas que se tornam visões da
morte de Mitsuo; o disparo, a agonia, o sangue, ele em meus braços... Não demoro
em acordar assustada e tremula, mas logo começo a me acalmar enquanto Katsuo e
o comandante Eikichi conversam observando o lado de fora e Hiroshi dorme próximo
de mim, mas não vejo Naoto em lugar algum; indago sobre ele e o comandante diz
que ele saiu a pouco para patrulhar as casas próximas. Os minutos se passam e
estranhamente Naoto não retorna, Eikichi começa a se preocupar e prepara a
todos para nos movermos dali caso seja preciso; antes que saiamos de nossa “base”
um disparo ao longe pode ser ouvido rasgando o silencio da noite; Eikichi e eu saímos
rapidamente em busca do autor do disparo, mas ao longe podemos ver Naoto
retornando ao nosso esconderijo. Mas algo esta errado seu rosto esta manchado
de sangue e Naoto anda de forma desorientada, Eikichi o recebe em seus braços e
logo percebe um corte no olho esquerdo de Naoto, provavelmente feito por uma baioneta
inimiga.
- Naoto!!
Naoto!! O que houve??!! Responda soldado!! – Berra Eikichi segurando Naoto nos
braços.
- *Puf Puf* Um
batedor senhor *Puf Puf* eu dei cabo dele, mas ele... me pegou de surpresa *Puf
Puf* - Responde Naoto ofegante e tremulo.
Um batedor... então
as tropas inimigas devem estar perto, e com certeza são em numero maior que o
nosso. Eikichi sem demora prepara a todos e remete ordens especificas para caso
sejamos descobertos; sendo estreitamente especifico em uma ordem:
- Caso eu
apareça perante o inimigo, nenhum de vocês irá fazer nada, pelo contrário irão
para o mais distante possível, entendido?! – Fala em tom serio e obstinado.
Mesmo
relutantes todos aceitaram a "ultima" ordem de nosso comandante, mas tenho
certeza que nenhum terá coragem de segui-la quando for a hora. Preparamo-nos,
tomamos nossos postos dentro de escombros e aguardamos pela segunda patrulha
inimiga aparecer; até que junto com os primeiros raios de sol surgem por entre
algumas arvores próximas os primeiros soldados americanos; eles se multiplicam
entre as arvores, e o que pensávamos serem 10 ou 20, se tornam pelo menos 50
homens acompanhados de anfíbios, pelo menos 4 ou 5 deles e todos bem armados. Tentar
combate direto é simplesmente suicídio; mas uma chamada do antigo radio de Hiroki nos
traz um pouco de esperança novamente, nosso comandante já havia requisitado
auxilio aéreo e os mesmos estariam aqui em 20 minutos, para acabar com o esquadrão
inimigo, só precisaríamos marcar o local com fumaça; mas para isso iríamos precisar
de literalmente, um sacrifício.

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